O termo geral tipografia diz respeito às functions of typeface design and the arrangement of type and other elements on a page, juntando duas palavras gregas: typos = forma e graphy = escrita.
Uma primeira etapa deste trabalho foi com base na recolha de tipografias gerais e de imagens especificamente relacionadas com as temáticas e as características mais comuns, quer de Pessoa, quer dos seus heterónimos. Nesta fase, encontrei tipografias extremamente interessantes, tendo ficado particularmente deliciado com a da Greenpeace e a do copo.
De seguida, pesquisei poemas de Caeiro, Campos e Reis que se enquadrassem no esquema alinhavado pela professora, algo que foi conseguido com uma certa dificuldade, visto os poemas serem geralmente demasiados extensos ou reduzidos. No entanto, após algum tempo despendido, consegui encontrar três poemas adequados.
Foram imensas as ideias surgidas desde o conhecimento da proposta até ao dealbar da sua execução, no sentido de proporcionar uma transmissão completa de traços caracterizadores de cada um dos alter-egos pessoanos.
O pontapé de saída foi dado com a tipografia de Alberto Caeiro. Na imagem, pode-se verificar uma divisão entre três entidades principais: a terra, o inconsciente e o céu. No plano terrestre, visualizam-se árvores e uma borboleta (alterada, com um desenho do rosto de Pessoa, num simbolismo da sua integração e comunhão com a componente Natural), aspectos bem vincados da Natureza, que marca profundamente a escrita de Alberto Caeiro. O inconsciente foi propositadamente colocado em branco: significa toda a ingenuidade, uma folha em branco que é cada criança – a nostalgia da infância é uma das temáticas mais recorrentes de Caeiro. Em cima, está o céu, um espelho da passagem do tempo (Caeiro afirmava “não quero incluir o tempo no meu esquema”). Um rosto em dimensões consideráveis do poeta foi igualmente incluído na composição, aproveitando o movimento ondulado das separações entre entidades. Aqui, podemos verificar que o escritor se encontra entre o Céu e o Inconsciente, de olhos postos na Terra, numa clara alegoria a uma certa transcendência e despersonalização de Pessoa.
Já no que toca a Álvaro de Campos, a tipografia encontra-se dividida em duas partes, com uma imagem do perfil de Pessoa de cada lado. O significado desta divisão prende-se (com um fio, uma linha ténue) com o delírio sensorial de Campos, que oscilava entre fases de decadentismo e de pessimismo, com uma alegria futurista e sensacionista onde cantava a civilização moderna. Este antagonismo de sentimentos parecia protagonizado por alguém transcendente, que alterava o estado de espírito de Campos de forma bastante rápida – daí o objecto colocado no cimo da tipografia. Em suma, o pessimismo, a angústia, o tédio e o cansaço (1º e 3ª fases da poesia de Álvaro de Campos) versus o delírio, a energia que colocava o poeta a cantar “torrencialmente”, de forma exagerada.
Para terminar, temos a imagem de Ricardo Reis que, no meu caso, se revelou o heterónimo mais difícil de “transmitir” para o papel. Na tipografia dedicada ao poeta clássico, de serenidade epicurista, está desenhada uma caneta que já vem a escrever ao longo de um vasto percurso, a vida. A caneta representa um catalisador com o desígnio de encontrar o caminho pela felicidade, correspondendo igualmente à intelectualização de emoções, que não lhe permitiam alcançar a plena felicidade. A abdicação de lutar a tentativa de fuga à dor levam-no a refugiar na escrita, num estádio de completa ataraxia e de aceitação das leis do destino.
A escolha do tipo de letra cingiu-se, a título geral, pelo Times New Roman, que detém proportionally spaced letters and serifs (Harris & Ambrose, 2006) e transmite um carácter de sobriedade à composição. Foram cumpridas regras essenciais como um tamanho recomendado de letra, uma boa relação entre cor do texto e cor de fundo, realce dos elementos com descrição (Ramos & Porfírio, 2005), entre outros.
Este trabalho revelou-se, para mim, e sem sombras de dúvidas, o mais difícil de executar. A pouca habituação ao Freehand e alguns obstáculos que senti na transposição de conceitos teóricos para a prática constituíram as principais dificuldades com que me deparei na feitura destas tipografias. No entanto, considero que consegui transmitir de forma bastante positiva as ideias que tinha na minha mente para estes casos, dignificando a magnífica poesia pessoana – a leitura e a busca de poemas foi bastante recompensadora.
Bibliografia
ERHLHOFF, Michael & MARSHALL, Tim. Design Dictionary. Birkhauser. 2008, pp, 409
HARRIS, Paul & AMBROSE, Gavin. The Fundamentals of Tipography. AVA Academic, 2006, pp.103
PORFÍRIO, Manuel & RAMOS, Elza. Educação Visual. Edições Asa. 2005, pp. 86-93



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